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Novamente a manhã se enrosca...



Novamente a manhã se enrosca
No quarto

A luz do azul acende
Os vidros

Venho ter com a fidelidade entre
O sol e o mar

Morrem juntos
Nascem juntos.

Os homens receiam Deus...



Os homens receiam Deus
Amiga. Eu
Receio a ti.

Os homens medram
Feito eu.

De mãos leves e olhos macios
Deus é assim:

Quando um dia se vão
Os homens
Suas dívidas são perdoadas.

Teu gesto, Amiga, é mais
Fino que a chuva, teus olhos
Mais leves que a lágrima.

E quando um dia eu me vou
Encontrar-te
Amiga
Sempre acordamos lúcidos e
Meu nome em tua boca é uma
Rosa de luz.

Os homens não sabem
E receiam. Eu
devia ter aprendido.


Eu te amo com espanto...



Eu te amo com espanto
E solidão.

Com as lâmpadas oblíquas
Do céu fechado

Da roupa esgarçada
Do incrédulo que reza
E não sabe.

Amo como um troglodita
E não te digo

O amor curvo
Como uma criança com medo.

Mas esse meu amor
É mais bonito que a água

É simples como um tropeço
É maior que o tempo

Esse adivinho espantado
Ensimesmado.

Eu te amo como quem
Já não acreditava.
Juro.


Mulher louca... de novo o teu amor...



Mulher louca... de novo o teu amor
De seda branca e boca enrubescida
Mulher linda... esgalga e atrevida
De pantanoso olhar e voz de flor.

Pêndulo hipnótico a rememorar
Como se fosse agora o outro estio
Uníssonos, o espanto e a nostalgia
São como o azul que funde céu e mar.

Mulher louca de louca intuição
(Certa clarividência é a minha cruz!)
Espinho do passado, que seduz

Que carrega nos lábios várias vidas
Na voz arrependida, tua dádiva
E, na benção de um beijo, a traição.


* escrito a quatro mãos com Bruno Cosendey


De alma a alma, diz diretamente...



De alma a alma, diz diretamente
Sem dizer uma única palavra.
Não sei bem o que ouço, propriamente
Mas ouço melhor quando não diz nada.

Sua mão em meu rosto (e para sempre
Vai me segurar onde quer que eu caia)
Uma verdade em seus olhos (não mente
Que precisa de mim, sem dizer nada).

Ouço as vozes de toda a multidão.
Eles nunca puderam definir
O que, entre o meu e o seu coração

Foi dito sem palavras, ao sorrir.
E era um simples abraço que me dava
O silêncio de tudo o que não amava.


* baseado na canção "When you say nothing at all", de Paul Overstreet e Don Schlitz


Pulsa dentro...




Pulsa dentro
De tuas flores
O princípio
Vital
Ramos de amor
Se dividindo.

Do outro lado
Um menino de mãos
Dadas
Vem comigo
Leva nos bolsos
Uma mão de terra.

Vidas futuras, invisíveis
Voam no espaço
Entre a terra
E as tuas flores.
Aguardam a travessia
De um pequeno rio.

Outras vezes fui um
Homem de construir pontes.
O menino via
Meus braços enrijecerem
Meu suor inundar o rosto
Até que pudesse passar.

Minha linda, agora
São as tuas flores...
É diferente.

Ao cravar na água
O primeiro pilar
Pensei ver o menino
Prestes a se perder
E me vi de repente aflito
Feito um pai.

Um pequeno rio
É muito pouco.
Já atravessamos cidades
Tuas flores se reinventaram
Eu aprendi a guardar
A munir e a disseminar.

Olha o menino
Teu amor o abranda
E então me liberto
Meu suor vai inundar
Meus braços erguidos vão
Cravar mil pilares.

Minha linda, em ti
Abrem pétalas
Quando acordo.

Cumprir minha missão
Vital
E jamais te magoar.
Existe algo em nós
A ser cuidado, amado
Nossos frutos.



Doce asfalto onde pisa meu instante...



Doce asfalto onde pisa meu instante
Esse instante onde piso e o outro adiante

Doce lume, disperso e prisioneiro
Mais duradouro que o maior isqueiro

Baba de uma doçura tão distante
Que do mar a ela cabe o rio inteiro
Ciscos em meu espaço, cheiro
Do mundo e música perseverante —

Da ausência, da saudade, da lonjura
Essa doce presença imarcescível
Mas nunca da matéria que não dura:

Te amo com a memória, imperecível”.


Tem nos lábios o gesto forte...




Tem nos lábios o gesto forte:
Seu gesto forte é cor de rosas...
Tem na pele o palor dos dentes
Tem olhos úmidos e verdes como o lodo.

Amareladas pétalas
Como se um dia o ouro se tornasse
Macio, rio com cascata
De pétalas, os fios
De ouro do cabelo.

Tem: é riquíssima.
Herdeiro do horizonte
O azul das águas não vai ter o quanto.

Sua vida é uma espada luminosa
E no andar a postura prateada
Suas luzes se deitam lúbricas
Na noite tem a rosa mais vermelha.

Tem seios tão precisos como um tom de cor.

Minha paixão é límpida
Como o leite.



Você vai sentir a mão do mesmo pôr-do-sol...




Você vai sentir a mão do mesmo pôr-do-sol!
Ela vai tocar seu rosto e pescoço
Vai contornar seio e costas
Você vai anoitecer.

A mesma mão do pôr-do-sol
Vai apontar passarinhos na mesma árvore
E de você de repente vai roubar
Uma memória
Um beijo de horizonte.

Você vai compreender
O vazio que ficou.

Vou embora sabendo:
Seus passos possuem meu ritmo!
Meus cantos para sempre
Em seus olhos vão acontecer.

Vou embora e vou levar
Meu amor e no amor resta
O esquecimento e com você
Vai viver uma flor em broto e triste
Por não se abrir.



De olhares empoeirados caídos no chão...



De olhares empoeirados caídos
No chão ou de
Folhas sem som
Se sepultando. De metais sem
Luz, com o vazio, com a
Ausência do dia
Morto
Bruscamente. No alto das
Mãos o deslumbrar de
Borboletas, seu decolar cuja luz
Não tem fim. Guardavas o rastro
De luz, de seres rotos que o
Sol abandonado
Entardecendo, arrasta às
Igrejas. Tingida
Com olhares, com objeto de
Abelhas
Teu material de inesperada chama fugindo
Precede e acompanha o dia e sua
Família de ouro. Os dias
Espreitando cruzam em
Sigilo, mas
Caem dentro de tua voz
De luz. Ó dona do amor, em teu
Descanso
Fundei meu sono, minha
Atitude calada. Com teu corpo de
Número tímido
Subitamente
Espalhado até as quantidades que definem a terra
Atrás da peleja dos
Dias brancos de espaço e
Frios de mortes lentas e estímulos
Murchos, sinto arder teu regaço e transitar teus
Beijos
Criando singelos
Pássaros em meu sonho. Às vezes
O destino de tuas lágrimas se ergue como
De meu rosto a idade, ali estão
Batendo as ondas da morte: seu
Movimento é úmido
Pendido
Final.

* recriação do poema "Alianza (Sonata)", de Pablo Neruda

Chove e as estrelas estão...




Chove e as estrelas estão
Despenteadas, no chão.
O céu não é firme, tudo
Parece instável e fluido
No céu de seu coração.

Jamais entendeu que é linda.
Eis por que se deita e ainda
Vagueia sob o aguaceiro.
Entendesse e não seria
De segundos nem terceiros.

Mas acontece que chove.
Uma nuvem fria envolve
Sua certeza, na altura.
E vaga, nunca resolve
E desde sempre foi burra.



Sono: duas...




Sono: duas
Borboletas
Pousadas
Em teu rosto.

Suas asas
Se acalmam desaceleradamente.



Essa ausência que...



Essa ausência que
Me fala por trás como no ouvido
Se esconde
Quando me viro. É um livro
De poemas não escrito
Que perambula invisível
Entre as estantes. De repente
Adormece comigo. Romeu
E Juan de Marco observam-na sonhar
Mas não me contam...

Amicíssima menina:
Menina das distâncias:
Distante namorada de braços tão longos
Que me alcança a carícia pelos espaços: escute:
Você
Deixou sua ausência fiel e falante
Que não me deixa
Deixou sua ausência que desperta
Antes e me acorda
Sua ausência que é feito um filho
Como quem deixa um filho
Por criar.


Ao passar pelos meses, pelos anos...



Ao passar pelos meses, pelos anos
Vivo em minha memória nossos dias
Os dias que morreram no passar
Neurótico do tempo, mas que vivem

Como vivem na mente de um infante
As imaginações de algum futuro.
Passam e sobrevivem onde vivo
Como se nada houvesse acontecido

Como se nossos dias nos ainda
Fossem surgir ou como se me fossem
Uma idéia inventada de repente
Que ao ver um vulto foge, estranha ave.

Ao passar pelos meses, pelos anos
Como se nunca houvesse acontecido.


Quando crestando o céu...



Quando crestando o céu
A noite se espalha
Tudo é substituído...

O sol verde das folhas pela paúra dos troncos
O barulho das borboletas pelo silêncio dos uivos
A sombra pelo vulto
A dor pelo sono. Cai
A cor do chão, laminada sob a lua.

Mas o mar, não.
Tudo é substituído menos
O mar que morre.

Que desenha o nada
Entre a espuma e a espátula
Do horizonte:
O aposento de um filho perdido
É seu lugar vazio deitado na noite.