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Guardava tantas coisas que...



Guardava tantas coisas que
Deviam ser deixadas
Argumentando que
No dia da mudança, quando fosse
Encaixotar aquelas
Que servem, ficariam fora
As outras, que deviam ser
Deixadas. Acontece que, na correria
Encaixotou as coisas e
Encaixotou sem distinção
Aquelas outras que serviam. Derivou
Agora um grupo
Novíssimo que deve se
Deixar, porque jamais alguém
Enxergaria
Encaixotado juntamente a todas
As coisas que deviam ser
Deixadas. Foi aí que viu
A natureza de umas outras e
De um garfo extraviado
No fígado.

§

Minha amiga, não chame o seu amigo...



Minha amiga, não chame o seu amigo
De “amigo”. Antes, dê-lhe uma facada
No abdômen e tire fora o seu umbigo
Mas “amigo” é palavra atormentada.

Um “não” certeiro, pronto! e mais nada
Ou de comparsa, cúmplice ou prefira
Chamar de transviado, pomba-gira
Mas nunca dessa música assombrada.

Os homens, minha amiga, têm o mal
De perturbar aquilo que é normal
E um dia perturbou-se com o amor

E noutro com a palavra... por favor
“Gosto muito de ti, eterno amigo!”
Nem que muito mereça o inimigo!

§

O amor perpassa o policarbonato...



O amor perpassa o policarbonato
A matéria magnética dos discos
Kubricks, polanskis, a anteposta luz
Ainda a desvelar. Seus dentes místicos

Incidem sobre cordas, pregadores
As roupas gotejantes da semana
A máquina, a memória (tudo gira
E se desbasta, mas o amor acorda

As cortinas). O vidro se trepida.
Chaves, página, tábua de cortar.
O amor combina as borras do café
Imbica a direção dos passos, vai

Sem destino imediato. Não colide
O espelho, a reflexão, os Four Quartets
O elétrico aparelho de afeitar
Na pia (em nada se depara, o amor

Renasce de si mesmo, sucessivo
Sem tributos à morte). Seus anéis
Tintinam o interior impermeável
As realizações. O amor se lança

Ao termostato, às linhas de drenagem
Acondiciona serpentinamente
As paredes, o jeans na maçaneta.
Súbito sobressai das luvas de

Boxe, da vida oculta dos cabides
Do juramento inabalável (dentro
Da vibração do dia, sempiterno
Emenda sonho e vigilância). Tufa

Os travesseiros. O edredom intui
Adivinha sua própria gramatura
À investida do amor. É ele! o sopro
O movimento que repousa

Em mim, em ti, Amor da minha vida.

§

Que seja feito...



Que seja feito
Pelo bem maior
Seria o mais sensato a lhe dizer
Se não fosse o maior dos desacertos:
Entre os erros mais graves, o erro mor.

Seria assim, o ímpeto sem termo
Veículo veloz que mata ou morre
A caminho do bem, mas não se importa:
O destino é moral e verdadeiro.

Seria mais sensato lhe dizer
Que seja feito
Pelo bem menor
Sem saber do caminho, mas da perda
Em cada giro último das rodas.
O metro ínfimo (jamais o norte):
Sondar o pó dos mínimos acertos.

§

O enigmático sério...



O enigmático sério modesto cinético
Insuspeito diurno servil específico
Adequado comum contestável feíssimo
Contraído casmurro pançudo diabético

Aplicado severo solícito rústico
Necessário ciente frutífero prático
Misterioso vulcânico férreo mui másculo
Compassado dogmático cético lúdico

Admissível enxuto bem-vindo simpático
Babilônico amargo berrante antipático
Hesitante infiel temerário melífluo

Abatido cansado sombrio patético
Impotente (in)feliz inaudível poético
Fragmentado enigmático vão indivíduo.

§

Quantos lhe passam por minuto...



Quantos lhe passam por minuto
Bairro de Botafogo?
De tão habitual à passagem
Deu a ela o nome de uma rua...
Giros e roncos desamarram
Suas herméticas persianas —
Como do mouro sua adarga!
Quem nunca se desmobiliza
Pela imbricada burguesia
Esse comércio sem complexo
Essa beleza sem culpados?
Quais imagens se movimentam
Afronésias e variações
Entre cervejas e cinemas
Dessa Lapa sem desalento
Novata Cinelândia?
A enseada cinematográfica
Onde a Zona Sul é simpática
Emudeceu antagonismos
Quando Cristo se escancarou.
Quantos lhe passam? —
O mote reincide, enciumado.
Você jamais se interessou
Em se ganhar à maioria
Que de ganhar em se perder
Muito se perde por minuto:
Mais vale a Estrela Solitária...

§

Novamente a manhã se enrosca...



Novamente a manhã se enrosca
No quarto

A luz do azul acende
Os vidros

Venho ter com a fidelidade entre
O mar e o sol

Morrem juntos
Nascem juntos.

§

Os homens receiam Deus...



Os homens receiam Deus
Amiga. Eu
Receio a ti.

Os homens medram
Feito eu.

De mãos e olhos
Macios
Deus é assim:

Quando um dia se vão
Os homens
Suas dívidas são perdoadas.

Teu gesto, Amiga, é mais
Fino que a chuva, teus olhos
Tenros como a lágrima.

E quando um dia eu me vou
Encontrar-te
Amiga
Sempre acordamos lúcidos e
Meu nome em tua boca é uma
Rosa de luz.

Os homens não sabem
E receiam. Eu
Já devia ter aprendido.

§


Eu te amo com espanto...



Eu te amo com espanto
E solidão.

Com as lâmpadas oblíquas
Do céu fechado

Da roupa esgarçada
Do incrédulo que reza
E não sabe.

Amo como um troglodita
E não te digo

O amor curvo
Como criança com medo.

Mas esse meu amor
É mais bonito que a água

É simples como um tropeço
É maior que o tempo

Esse adivinho espantado
Ensimesmado.

Eu te amo como quem
Já não acreditava.
Juro.

§


Mulher louca... de novo o teu amor...



Mulher louca... de novo o teu amor
De seda branca e boca enrubescida
Mulher linda... esgalga e atrevida
De pantanoso olhar e voz de flor.

Pêndulo hipnótico a rememorar
Como se agora fosse o outro estio
Uníssonos, o espanto e a nostalgia
São como o azul que funde céu e mar.

Mulher louca de louca intuição
(Certa clarividência é a minha cruz!)
Espinho do passado, que seduz

Que carrega nos lábios várias vidas
Na voz arrependida, tua dádiva
E, na benção de um beijo, a traição.

§

* Escrito a quatro mãos com Bruno Cosendey


De alma a alma, diz diretamente...



De alma a alma, diz diretamente
Sem dizer uma única palavra.
Não sei bem o que ouço, a letra idêntica
Mas ouço melhor quando não diz nada.

Sua mão em meu rosto (desde sempre
Vai me segurar onde quer que eu caia)
Uma verdade em seus olhos (me acena
Que precisa de mim, sem dizer nada).

Ouço as vozes de toda a multidão.
Eles nunca puderam definir
O que, entre o meu e o seu coração

Foi dito sem palavras, ao sorrir.
E era um simples abraço que me dava
O silêncio de tudo o que não amava.

§

* Baseado na canção "When you say nothing at all", de Paul Overstreet e Don Schlitz

Tem nos lábios o gesto forte...



Tem nos lábios o gesto forte:
Seu gesto forte é cor de rosas...
Tem na pele o palor dos dentes
Tem olhos úmidos e verdes como o lodo.

Amareladas pétalas
Como se um dia o ouro se tornasse
Macio, rio com cascata
De pétalas, os fios
De ouro do cabelo.

Tem: é riquíssima.
Herdeiro do horizonte
O azul das águas não vai ter o quanto.

Sua vida é uma espada luminosa
E no andar a postura prateada
Suas luzes se deitam lúbricas
Na noite tem a rosa mais vermelha.

Tem seios tão precisos como um tom de cor.

Minha paixão é límpida
Como o leite.

§


Chove e as estrelas estão...



Chove e as estrelas estão
Despenteadas, no chão.
O céu não é firme, tudo
Parece instável e fluido
No céu de seu coração.

Jamais entendeu que é linda.
Eis por que se deita e ainda
Vagueia sob o aguaceiro.
Entendesse e não seria
De segundos nem terceiros.

Mas acontece que chove.
Uma nuvem fria envolve
Sua certeza, na altura.
E vaga, nunca resolve
E desde sempre foi burra.

§


Essa ausência que...



Essa ausência que
Me fala por trás como no ouvido
Se esconde
Quando me viro. É um livro
De poemas não escrito
Que perambula invisível
Entre as estantes. De repente
Adormece comigo. Romeu
E Juan de Marco observam-na sonhar
Mas não me contam...

Amicíssima menina:
Menina das distâncias:
Distante namorada de braços tão longos
Que me alcança a carícia pelos espaços: escute:
Você
Deixou sua ausência fiel e falante
Que não me deixa
Deixou sua ausência que desperta
Antes e me acorda
Sua ausência que é feito um filho
Como quem deixa um filho
Por criar.

§


Ao passar pelos meses, pelos anos...



Ao passar pelos meses, pelos anos
Vivo em minha memória nossos dias
Os dias que morreram no passar
Neurótico do tempo, mas que vivem

Como vivem na mente de um infante
As imaginações de algum futuro.
Passam e sobrevivem onde vivo
Como se nada houvesse acontecido

Como se nossos dias nos ainda
Fossem surgir ou como se me fossem
Uma ideia inventada de repente
Que ao ver um vulto foge, estranha ave

Ao passar pelos meses, pelos anos
Como se nunca houvesse acontecido.

§